• Roni Carlos Costa Dalpiaz

UMA CHAMINÉ ESQUECIDA A CAMINHO DO MAR

Quem ainda não se deparou com esta enorme chaminé quando andou pela Freeway, indo para o litoral? Sim, essa chaminé aí da foto.


Eu, desde pequeno, via a tal chaminé no começo de uma longa curva logo no início da freeway. Cada vez que ia a Porto Alegre, lá estava ela, com suas enormes letras, uma abaixo da outra: um “A”, um “G”, outro “A”, um “S” e finalmente o último “A”. AGASA!

Com o tempo, também tive a curiosidade de saber o que era aquilo, ou o que teria sido aquele complexo de prédios com aquela enorme chaminé, agora abandonados.

Para quem não sabe do que se trata e, assim como eu, tem curiosidade, esta chaminé fazia parte da usina de Açúcar Gaúcho S.A, por isso AGASA.

Mas o que foi a AGASA?

Para melhor explicar o que foi a AGASA, me vali de uma tese de doutorado da historiadora Véra Lucia Maciel Barroso feita e defendida em 2006. Seguindo a sua pesquisa, e para entendermos melhor o surgimento da AGASA, temos que voltar no tempo lá para a primeira metade dos anos de 1700, no ciclo do Tropeirismo.

O trânsito de tropeiros, principalmente pelos caminhos da Praia e do Sertão (via Santo Antônio da Patrulha e Campos de Cima da Serra/RS) criou um ótimo mercado para a produção de açúcar mascavo, rapadura e aguardente. A partir daí, o cultivo da cana e os engenhos foram surgindo principalmente nos municípios de Torres, Osório, e Santo Antônio da Patrulha, aproveitando o espaço criado. Mais tarde, como fruto desta expansão, surgiram tentativas frustradas de industrialização no século XX, através da Usina Santa Marta (privada) e através da Destilaria Livramento (estatal), as duas entre as décadas de 1930 a 1950. Teve, também na mesma época, em Osório, outra destilaria, esta pelo IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool), que mesmo pronta nunca chegou a funcionar. Na década de 1950, foi a vez de comercializar o açúcar amarelo com os produtores de vinho da serra gaúcha. Os engenhos manufaturavam o açúcar e remetiam para a serra para ser insumo para o vinho.

E finalmente, na década de 1960, surge a AGASA, (Açúcar Gaúcho S.A.), a “da chaminé”.

A AGASA nasceu para oferecer açúcar branco ao mercado do Rio Grande do Sul, desafiando a hegemonia do Sudeste e do Nordeste do país. Funcionava como uma cooperativa, agrupando os pequenos produtores e organizando a categoria. Ela surgiu como um alento à séria crise por que passava o setor.

“Mas o sonho que prometia a redenção dos canavieiros sofreu um grave revés, imposto pelo golpe de 1964, ao determinar uma fissura estrutural no projeto. O que se encaminhava para ser um modelo usineiro original e singular no Rio Grande do Sul foi malogrado.”

Ela acabou por não conseguir se tornar uma empresa lucrativa e autossustentável e ao invés de auxiliar os canavieiros, liquidou a atividade artesanal dos mesmos, que era a produção dos derivados da cana (aguardente, açúcar mascavo e rapadura).

“Além de ter alterado o costume daqueles que compunham o cenário central de trabalho da região, desconstruiu a tradição canavieira e expulsou a maioria das famílias que ali viviam, fazendo o que seus antepassados faziam.”

Este conjunto de coisas fez com que a AGASA encerrasse suas atividades em 1990. Ficando para a história de Santo Antônio da Patrulha e região.

Uma história pouco conhecida e, talvez para a maioria dos gaúchos, reduzida a apenas “uma chaminé esquecida a caminho do mar”

Fonte: Véra Lucia Maciel Barroso MOENDAS CALADAS: Açúcar Gaúcho S. A. – AGASA: um projeto popular silenciado: Santo Antônio da Patrulha e Litoral Norte do Rio Grande do Sul (1957-1990). Tese de Doutorado, Porto Alegre,2006.

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