• Roni Carlos Costa Dalpiaz

TARDINHAS BUCÓLICAS EM TORRES

Revirando antigos livros por aqui publicados, resolvi compartilhar com vocês fragmentos de dois livros que, cada um da sua forma, nos remete aos antigos verões da cidade de Torres.


"Verão de 1914

A tarde ia morrendo aos poucos. O sino da igreja começou a bimbalhar. E ainda ao bimbalhar do sino, apontou lá no começo da rua, o seu Eloi, o acendedor de lampiões. Era um homem alto, magro, de pouca conversa. Trazia em uma das mãos uma escadinha de quatro degraus e na outra uma latinha com bico de cafeteira. Nós, crianças sentadas em cadeiras de pau, diante da nossa casa, contávamos, conforme seu Eloi ia acendendo os lampiões: um...dois...três...o quarto era o lampião da esquina do armazém do seu Balbino, o quinto ficava diante da casa do intendente, o coronel João Pacheco de Freitas, depois vinha o nosso lampião. Seu Eloi encostava a escadinha no poste e só quando a luz tremia lá de cima é que ele cumprimentava: Boa noite – dizia com voz grave. Nós respondíamos todos juntos: boa noite. Seu Eloi descia da escadinha, tomava suas coisas e, sempre sério, toc...toc...toc... lá se ía ele batendo os tamancos nas pedras irregulares da calçada. Nós o seguíamos com os olhares e contávamos: sete...oito. Depois vinham dois lampiões do outro lado da rua, que era bem mais curto. Ainda tinha um na esquina, perto da igreja, outro diante da única casa um pouco atrás da igreja, a casa da família Alfredo Clezar, e o último ficava diante da casa ao lado da igreja."

Esse trecho do livro “São Domingos das Torres” de Ruy Ruben Ruschel e de Dalila Picoral Ruschel, mostra a tranquilidade de uma vila que ainda não havia encontrado sua vocação turística. Era apenas uma pacata vila de pescadores com vocação agrícola. Mas estava prestes a receber seu primeiro grande hotel balnear: o Balneário Picoral.

A partir do hotel tudo mudaria, os lampiões dariam lugar a luz elétrica fornecida pelo próprio hotel. Os verões calmos dariam lugar a frenéticos turistas. Enfim, nada seria como antes.

"Verão de 1920

Corria o ano de 1920, numa Caxias provinciana nos albores da sua infância. A menina Maria Luiza, nos seus dez para onze anos, não conseguia conciliar o sono. Na madrugada seguinte começaria a maior aventura da sua vida: a viagem para a praia de Torres, desconhecida e misteriosa como foi o oceano para Cristóvão Colombo. Parecia tão longe! Cento e setenta quilômetros eram infinitos para a criancinha encarapitada no seu petiço pernas curtas. O mesmo que viajar para uma estrela! Agora, voando nas asas do sonho e da saudade, descobre que setenta e quatro anos é bem mais perto, pois num segundo ela volta para lá.

Foram cinco dias felizes, viajando numa paisagem dourada de sol, sem barro nem poeira, pois os pastos cobriam toda a terra como um tapete verdejante.

Ao contar como era a descida da serra, por trilhas estreitíssimas beirando abismos profundos, em fila, um atrás do outro, recorda os gritos que costumavam dar para avisar os que vinham em direção contrária: “Oooooh! Oooooh!” que repercutiam nos paredões da serra, multiplicados pelo eco. Mais que avisos, eram a expressão da pura alegria de viver na liberdade dos amplos espaços abertos, como as andorinhas.

Neste trecho do livro de Eduardo Festugato, “Torres de antigamente”, está descrito como eram as viagens dos serranos até Torres. Como eram trabalhosas e longas. Comparadas com as de hoje, parecem verdadeiras epopeias. O que antes chegava a levar cinco dias, hoje, dependendo do carro ou do “pé do motorista”, essa viagem pode durar no máximo umas três horas."

Essas duas passagens nos dão uma pequena amostra de como era poético, mas trabalhoso, veranear por estas bandas no passado!

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