• Roni Carlos Costa Dalpiaz

OS GUARDA-VIDAS

O homem e o mar sempre estiveram em interação. O mar sempre exercendo seu fascínio seja na busca por novos rumos ou como fonte de alimentação. Com o avançar da civilização, o mar começou a ser utilizado também para o lazer, primeiramente para os mais abastados e mais tarde por todas as classes sociais.



Torres iniciou seu ciclo como praia de lazer nos primeiros anos do século XX atraindo os parcos turistas de banhos terapêuticos. Os primitivos turistas eram basicamente os serranos, que desciam a serra para os seus banhos de mar. Naquela época não havia infraestrutura para receber estes turistas, que se dispersavam entre pensões e casas de aluguel. Eles ficavam em Torres, normalmente, até tomarem os nove banhos recomendados. Eram nove banhos, tomados sempre de madrugada, que garantiriam aos serranos saúde para restante do ano. Feito isso, retornavam à serra.

Mais tarde, em 1915, é que a pequena vila começou a se transformar através do famoso Balneário Picoral, um verdadeiro empreendimento balnear.

Este empreendimento turístico trouxe para a cidade um grande número de pessoas interessadas nesses banhos matinais, muitos de uma só vez. O hotel Picoral chegava a trazer para a vila de Torres uma quantidade superior a 500 pessoas, sendo necessário um cuidado especial quanto à segurança nos banhos de mar. Esses banhos, que aconteciam pela manhã sempre no mesmo horário. Isso ocasionava um acúmulo de banhistas todos no mesmo lugar e ao mesmo tempo, aumentando o perigo de acontecer algum afogamento.

O que de fato um dia aconteceu. Na verdade, foram dois afogamentos, um turista e um garçom. O que levou o empreendedor José A. Picoral a adotar uma solução já conhecida em outros balneários pelo mundo: a contratação de um guarda-vidas. Até aquele momento, em Torres, a segurança não era feita por uma pessoa qualificada para isso, pois nem existia a atividade na época. Os primeiros guarda-vidas surgiram lá na França, em 1865 e somente em 1901 foram reconhecidos como de utilidade pública.

Torres, através do Picoral, foi o primeiro balneário do litoral gaúcho a utilizar um Guarda-vidas em suas praias, sendo mais tarde seguido pelas outras. Para isso, em 1929, ele contratou um pescador conhecido na região, o seu Edmundo, um grande nadador com experiência nas águas do mar torrense. Com o tempo, outros pescadores foram recrutados por Picoral para exercerem a atividade de Guarda-vidas, mantendo assim seus hóspedes seguros até o ano de 1941, quando o hotel encerrou suas atividades.

A partir deste ano as águas torrenses ficaram sem um Guarda-vidas contratado, e só em 1969 é que foi implantado o novo serviço de salva-vidas na cidade oferecido, desta vez, pela SAPT.

No restante das praias do Rio Grande do Sul, essa proteção também era feita por pescadores principalmente no início da década de 50. E diferentemente dos pescadores (Guarda-vidas) contratados por Picoral, estes outros não eram remunerados, postavam-se à beira da praia sem nenhuma retribuição além do reconhecimento público da coragem e do espírito de humanidade.

No dia 28 de dezembro de 1970, a Brigada Militar encampou o serviço de Salva-Vidas, com a primeira turma de policiais militares formados em Porto Alegre exclusivamente para este trabalho. O então novo Serviço de Salvamento em todas as praias litorâneas foi chamado de “Operação Golfinho”, e funciona assim até hoje.

Fontes: https://www.brigadamilitar.rs.gov.br/50-operacao-golfinho; MURI, Guido. Remembranças: As vivências de uma comunidade. Porto Alegre: Pallotti, 1996. FESTUGATO, Eduardo S. Torres de Antigamente: crônicas e memórias. Caxias do Sul, 1994.

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