• Roni Carlos Costa Dalpiaz

OS FUZILADOS DAS TORRES

Histórias incríveis estão abrigadas nas páginas de antigos livros. O meu papel é encontrá-las, resgatá-las e oferecê-las aqui na coluna. Desta vez eu reescrevo sobre os fuzilamentos que ocorreram em Torres, lá pelo ano de 1894.


Esta história foi contada por Ruy Ruschel através da reprodução de partes do texto do livro “Narrativas Militares”, do cearense Carvalho Lima, editado em 1906.

Vou reproduzir utilizando como base o próprio texto de Carvalho Lima.

Era verão, em 1894, na pacata vila de São Domingos das Torres. Nesta época, a região das Torres possuía cerca de 120 casas, espalhadas entre a Itapeva, o potreiro, o rio Mampituba e o miolo central, que compreendia a Igreja São Domingos e os restos do Baluarte Ipiranga. Havia o cemitério, próximo a igreja, o prédio da estação de telégrafos e correios, uma escola pública, três lojas de fazendas, secos e molhados e um hotel.

Em 1º de novembro, uma força legal da revolução Federalista, com efetivo aproximado de mil homens, comandados pelo General Artur Oscar de Andrade Guimarães, chega à vila de Torres em marcha à Tubarão-SC. Esta divisão do exército aqui estacionou para controlar eventuais ações dos rebeldes maragatos que então dominavam Santa Catarina.

Conta, Carvalho Lima, que seis praças do 25º Batalhão de Infantaria desertaram e, em seu encalço, foi enviado um piquete de cavalaria. Os praças fugiram em direção à serra margeando o Mampituba, mas não foram longe. Ao serem abordados pelo piquete, dois praças se jogam no rio e tentam alcançar as margens opostas. Um é baleado e o outro não vence a correnteza do rio e morre afogado. Agora são só quatro! Presos, os desertores que sobraram foram levados de volta à vila.

Lá chegando, foram encaminhados ao julgamento do general e, sem formalidades, condenados a serem fuzilados no dia seguinte em frente ao portão do cemitério local.

No alto da torre Norte, duas altas estacas, a dois passos uma da outra, foram fincadas ao lado do portão. Perto da hora do fuzilamento, os quatro praças sobem o morro amarrados pelo pescoço numa única corda. Eles são conduzidos por um contingente de doze praças comandados por um sargento.

“Chegados ao local, o contingente faz alto, suspende e descansa armas, e os quatro infelizes, alvos de todos os olhares, conservam-se imóveis fitando o chão. O oficial que veio assistir à execução experimenta se os postes estão firmes, e inteirado disto manda que tragam dois dos prisioneiros – o da direita, um forte soldado, filho do Ceará, aparentando uma idade de quarenta e poucos anos, e o da esquerda, filho de Sergipe, franzino e simpático e de uns trinta e poucos anos presumíveis. São atados aos postes, pela cintura, passando a corda por sobre os braços. O primeiro conservava-se mais ou menos tranquilo e olhava o pelotão, postado a uns 30 passos a sua frente: o segundo chora, e pede que lhe perdoem e que não o matem.”

A pedido do primeiro condenado, o oficial não lhe põe a venda. Ele tinha coragem para assistir a sua própria execução. O segundo, ainda chorando, aceitou a venda como se esperando por um milagre.

Na assistência, estava grande parte do pelotão, alguns moradores e os dois condenados que ficaram para a próxima etapa. Todos olhavam com temor e compaixão. Os dois, que ainda estavam com a corda nos pescoços, tremiam e choravam prevendo o seu fim próximo. Mas agora era a vez dos que estavam na mira dos fuzis.

Braço armas, preparar, carregar, apontar...Fogo!

O susto do estampido fez com que alguns fechassem os olhos e perdessem a triste cena dos dois desertores sendo alvejados.

O oficial manda que retirem os mortos para dar lugar aos próximos. E, para surpresa dos condenados, antes de serem mortos, os dois foram obrigados a cavar a sepultura dos dois mortos e as suas também.

“E eles, já insensíveis à dor pela grande comoção que lhes roubara a vida em vida, trêmulos, cavam o solo vagarosamente, regando-o com lágrimas...

Não tinha terminado ainda a tarefa, quando uma ordem vinda do quartel-general mudou por completo o sentimento de tristeza de que todos se achavam possuídos, em rápida alegria: os dois que ainda viviam, ficariam para ser fuzilados no dia seguinte.”

No dia seguinte, por influência de algumas famílias de São Domingos das Torres e outros pedidos vindos de fora, os dois condenados foram perdoados.

Duas das covas abertas, agora serviriam para outros defuntos.

“De acordo com a Constituição de 1891 que aboliu a pena de morte, ressalvadas as disposições da legislação militar “em tempo de guerra”. Como não havia guerra declarada, os fuzilamentos, de acordo com Ruschel, foram ilegais.”

Fonte: Torres tem história. Ruy Ruben Ruschel.

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