• Roni Carlos Costa Dalpiaz

OS FORTES DA TORRE

Dias destes estive conversando, via WhatsApp com o escritor Bento Barcellos da Silva, e ele me contou uma novidade sobre um antigo forte construído aqui em Torres.



A conversa, na verdade, se iniciou com uma fotografia, essa aí de cima que ilustra a coluna. Dois canhões, na beirada do Morro do Farol, direcionados para o mar.

Nossa! Que interessante uma foto com os canhões dos antigos fortes de Torres.

Seria esta foto verdadeira? Mas o forte não era ali? Porquê dois canhões estariam em um lugar bem distante do sítio do antigo forte?

Analisando a fotografia, ela parecia com uma que eu já havia pintado e tinha características daquelas que foram feitas nos anos de 1950/1960. Olhei melhor e vi que não poderia ser verdadeira. É Fake. Fake do passado!

Morta a charada, o Bento me enviou outra, essa ainda mais estranha. Nessa os canhões (idênticos aos da primeira) estavam em cima da torre do meio, também apontados para o mar.

Está claro que a mesma pessoa fez as duas montagens, pois além de utilizar fotos da mesma época, usou a imagem dos mesmos canhões.

Para quem não conhece um pouco da história da cidade e de seus antigos fortes, elas até podem parecer verdadeiras. Mas, a conversa foi mais adiante.

Bento falou sobre um antigo cemitério que ficava perto do Forte. Aí a confusão foi geral.

Mas o forte não era na subida do morro? E o antigo cemitério era bem mais acima, ao lado do Farol?

De acordo com Bento, este forte havia sido descrito e localizado (através de croquis) pelo historiador Ruy Ruben Ruschel em seu livro “Os Fortes de Torres”. Neste livro ele detalhou com minúcias o tal forte e o localizou em uma área em cima do Morro do Farol, onde hoje estão as ruínas da Escola Cenecista (antigo Marcílio Dias).

O problema, segundo Bento, é que a descrição era de um lugar e o desenho da localização foi colocado em outro. Seria engano?

Recebi do Bento dois outros mapas que mostravam a localização do forte na parte baixa do morro do Farol, um pouco antes da atual Pousada da Prainha. Ou seja, bem no caminho onde era a antiga passagem dos viajantes que atravessavam para entrar no Rio Grande do Sul. O que faz mais sentido, visto que o forte era contra a invasão dos soldados espanhóis e estaria no único espaço que impediria realmente a passagem. Não mais acima, bem longe dessa passagem.

O que levanta outra questão: os outros Fortes também foram construídos no mesmo local?

Se pensarmos como Torres seria em 1777, de forma resumida era: mar, areia, morros com vegetação da floresta Atlântica, e banhado, muito banhado. A Torre Norte iniciava na subida da praia grande e abrangia o que chamamos de morro do Farol. Toda a parte alta da cidade seria considerada a primeira Torre, ou Torre Norte. Então se o forte foi construído na Torre Norte, poderia sim ter sido naquele local, a poucos metros da igreja, na passagem estreita entre o matagal da encosta do morro e os extensos banhados do lugar.

Isso é confirmado pelo próprio texto do Ruschel: “No século XVIII, quando portugueses e espanhóis disputavam a posse do Rio Grande do Sul, o Sítio das Torres, adquiriu valor estratégico. Todo o tráfego terrestre com o resto do Brasil aí passava obrigatoriamente. Sim, porque ali se afunilava o único meio de comunicação existente e por isso em 1777 foi erguida a primeira fortificação de Torres, o fortim São Diogo das Torres, pelo Marechal Diogo Funck. Mais tarde, em 1797, foi erguido o segundo, e em 1820 o antigo Fortim foi refeito e nomeado Baluarte Ipiranga, pelo Cel. Francisco de Paula Soares de Gusmão. Este forte se localizava no lado ocidental da torre norte e tinha plataformas para receberem até quatro canhões. Das pontas partiam dois muros, um pelo lado do mar e o outro, pelo continente. Ao longo estendiam-se valos (fossos), de onde provavelmente fora extraído o material da construção.”

Este último seria o Forte citado pelo Bento, aquele da abertura da conversa.

O fato é que não se tem outras evidências sobre a localização, nem “restos” arqueológicos que possam identificar o local, aparentemente todos os fortes foram construídos com o que na época se chamava “faxina”, uma mistura de barro, palha e galhos. Como o material era frágil, facilmente se desmanchava e sumia na natureza.

Ao que parece a localização exata do Forte continuará sendo um mistério ou será que alguém tem alguma novidade?

Não sei.

O que eu sei é que esqueci de perguntar ao Bento o que ele ia me contar sobre o tal antigo cemitério. Como a conversa se estendeu demais e foi para outro lado, não perguntei.

Então fica para uma outra conversa, que certamente renderá uma nova coluna.

Fontes: Bento Barcellos da Silva; Ruy Ruben Ruschel.

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