• Roni Carlos Costa Dalpiaz

OS FARRAPOS E O FANTASMA DO CEMITÉRIO

Em setembro do ano de 2001 a Zero Hora lançou um livro chamado “Os Farrapos” de autoria do escritor Carlos Urbim. Uma relíquia! Sua capa lembrava aqueles antigos livros empoeirados nas velhas estantes de, também, antigas bibliotecas.


Em homenagem ao gaúcho, este livro, vinha com um lenço vermelho abraçando suas páginas. Dava para se ver o cuidado na confecção e na apresentação do livro que homenageava o povo gaúcho mostrando uma versão menos fantasiosa da história dos farrapos.

Ricamente ilustrado, o livro era realmente uma ótima fonte de pesquisa para quem quisesse conhecer mais amiúde a saga farroupilha. Não sei quantos exemplares foram feitos e nem sei se foi posteriormente lançado comercialmente.

Este exemplar, a que me refiro, fazia parte de uma promoção do jornal Zero Hora e era destinada à assinantes. O meu está bem guardado e volta e meia tiro o lenço maragato e dou uma foleada em suas “empoeiradas” páginas. O que acontece geralmente próximo a data da Revolução Farroupilha: o vinte de setembro.

Este ano, além de resgatá-lo eu resgatei também um outro livro que faz parte do acervo da minha mulher. O livro é “Lavras do Sul na bateia do tempo” e o autor é Edilberto Teixeira, nele o autor conta, em dois volumes, a rica história da “Pepita do Rio Grande”, como é conhecida a cidade de Lavras do Sul.

Este livro contém algo que eu gosto muito: as histórias e lendas. E como o dia 20 de setembro, já passou mas ainda estamos no mês Farroupilha, vou transcrever uma dessas lendas que me fez rir sozinho na poltrona de casa. Aproveitem, está no linguajar “bem bagual”! O Fantasma do Cemitério.

“O Tio Sula, parente da Geromita rezadeira de terço, era um mulato mui sério e bem cotado entre aquela gente ali do Barrondão. Morava ali por perto, rinconado um pouco mais pra cá, prás bandas do Esquindim. Por ser vizinho ali do cemitério, o Tio Sula não falhava enterro e, muito serviçal, vivia se oferecendo para os familiares que iam, vez por outra, no Esquindim levar flores aos parentes ali sepultados. Num certo Dia de Finados, os moradores dali se cotizaram e encarregaram o Tio Sula da limpeza daquele campo santo, que estava muito sujo e abandonado, o que má recomendava a gente da vizinhança. Naquele dia, ele então foi nomeado e empossado no cargo de zelador do cemitério. Do que muito se orgulhou, pela confiança nele depositada. Sentiu- se mais aboletado. Além do fixo, quando havia um enterro, uma pintura nova num jazigo, um reboco a ser remendado, ele ganhava uma changa a mais. O que sempre vinha de jeito, pois era carregado de filhos e os serviços de "afetivo" nas estâncias andavam minguados, em razāo de, naqueles últimos anos, a pecuária andar de arrasto. Compenetrado na sua nova função de zelador do cemitério, o Tio Sula, quando avistava chegar uma Condução, lá se ia, em seguida, oferecer os seus préstimos. O cemitério, depois que ele tomou conta, mudou de Sorte. Conservava-se agora sempre bem varrido e sem um pé de guanxuma. Antes, até uma touceira de caraguatá havia nascido no portão da entrada. Até a cacimba tinha remoçado. Podia-se ali beber sem sestro, dava até gosto! Quem ia ao Esquindim não esquecia de um presente extra para o Tio Sula. Alguns lhe obsequiavam até com uma metade de ovelha. E, quanto mais ele era agradado, mais se esforçava para fazer por donde. Andava até bondoso demais! Aos domingos, ficava atento olhando a estrada. Alguns vinham de muito longe com maços de flores para enfeitar o jazigo de seus parentes ali enterrados.

Sábado, portanto, era dia de limpeza. O Tio Sula gastava o fio da enxada e a vassoura se espevitava em suas mãos, varrendo as ruas do campo santo. Alguns lhe haviam deixado cal para ele caiar as tumbas e os jazigos de seus familiares. Certo sábado, ele estava caprichando no seu oficio que nem se apercebeu do que estava para acontecer, levantou uma tormenta para as bandas de Caçapava e o agarrou ali, entretido com a limpeza. O Sul veio pretejando e a chuva desabou de repente. O Tio Sula não tinha trazido o poncho e dali até a sua casa era uma estirada e tanto. Para não se molhar, abrigou-se dentro de uma carneira vazia, desabitada há pouco, deitou-se ao comprido, como o antigo morador, e ficou espiando e ouvindo o temporal lá fora, fazendo rumor. A carneira onde ele estava botava a boca para o lado do muro. Ficou ali, quieto, deitado ao comprido, esperando a chuva passar. E nada! Vinha chegando a noite e o temporal desabando...Uns tropeiros, com a missão cumprida, vinham retornando à querência. Também agarrados de surpresa pela tempestade, vinham, de volta do Barrondäo, a trote e a galope pelo corredor. A Situação estava por demais peleguda, Aquela chuva torrencial e com o vento de frente não os deixava andar. Os cavalos retrecheavam a marcha, tencionando virar de culatra. Sem outra alternativa, chegaram- se, então, ali pro cemitério em busca de abrigo. Ficaram os dois tropeiros arrinconados ao muro, recostados, esperando passar a tempestade. O vento fazia rumor por cima do muro e desaprumava a copa dos seus chapéus. Eles ali, quietos, protegidos, permaneciam, meio agachados, no lombo dos cavalos. Molhei até o saco da erva! queixou-se um deles, comentando o aguaceiro que, sem parar, branqueava longe, lavando os campos. A-la-fresca! Até a mecha do meu isqueiro está molhada! - lamuriou-se o outro, que, a muito custo, tinha fechado um cigarro, sob a proteção do poncho. Agora que a porca torce o rabo! Exclamou o primeiro - Perdi os "fófres"! É amarga a vida do tropeiro! Bamo pitá os dedos! Os meus avios estão encharcados! - foi a conversa deles ali junto ao muro do cemitério. Sula, ouvindo as suas queixas, como era muito serviçal, prontificou-se: Eu tenho fogo aqui, seu moço! - gritou dentro da tumba, sem dar-se conta de sua situação de sepultado - vivo. Foi um deus-nos-acuda... Os dois tropeiros enfrentaram o temporal e se foram embora dali. Fugiram espavoridos, agachados na tábua do pescoço dos seus pilungos, que, de oreIhas murchas e no pique das esporas, foram forçados a enfrentar o baita temporal daquela tarde. No outro dia, o Tio Sula, chegando na estância onde eles pousaram, próxima dali, e vendo suas roupas secando, estendidas à beira do fogo, esperou pela história e, depois, troçou com eles: o zelador virou fantasma!”

Fontes: Edilberto Teixeira, Lavras do Sul na bateia do tempo. Carlos Urbim, Os Farrapos.

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