• Roni Carlos Costa Dalpiaz

OS FANTASMAS DO PASSADO - O CRIME DO DELEGADO

Dando continuidade ao tema “inacreditável”, iniciado na semana passada, vou recontar desta vez uma história, não de fantasma, mas bem intrigante e igualmente assustadora. A história é de um crime ocorrido na cidade lá pelo início do século passado por volta dos anos de 1920, provavelmente.

Esta história foi contada por dois escritores, o historiador Guido Muri e Enedir Quadros (no livro de Eduardo Festugato). As versões da mesma história têm alguns detalhes conflitantes, embora o enredo e o desfecho sejam bem próximos. Diferentemente do que fiz na história contada na semana passada, nesta eu vou dar a minha versão aproveitando partes e informações das duas.

A história é “O crime do Delegado”, um crime ocorrido na pacata vila de Torres que envolveu o delegado e um casal dono de hotel.



O hotel Zeló (ou seria Teló, o hotel da foto acima) ficava onde hoje está o posto de gasolina, na esquina oposta ao banco Bradesco. Este hotel era de propriedade do senhor Zeló (conforme narrado pelo seu Enedir) e pela sua esposa Irene Zeló (suposto sobrenome). Dona Irene era uma mulher muito bela e despertava interesse em muitos homens da cidade, apesar dela ser uma mulher casada. Um destes “flechados” pelos encantos da bela dona foi o delegado da cidade, o senhor João Freitas, sendo igualmente correspondido. Da violenta paixão, surgiram vários e arriscados encontros românticos que não passaram despercebidos pela pequena população da cidade, que, logicamente, condenava o escândalo.

Tratando o marido como estorvo ao romance, o delegado resolveu dar um fim a seu oponente. Chamou o soldado “Negrinho” para fazer o serviço. O soldado era seu subordinado e já tinha um antecedente de ter afogado o seu padrinho num poço, e fazia este tipo de serviço por encomenda. Em troca ele recebeu uma fatiota (terno) completa, incluindo chapéu e sapatos.

“Em noite escura postou-se o soldado atrás de arbustos no pátio do estabelecimento, em frente a porta da cozinha. Era aquele momento em que o casal encerrava as lides hoteleiras e aproveitava para o sossegado jantar em comum. O cenário estava armado: a noite trevosa; a cozinha fartamente iluminada pelo grande lampião; somente o nenê no colo do pai é que impossibilitava a bala fatal. A esposa pedia a criança ao incauto marido e insistia, com pretexto ora de mudar a roupa do filhinho, ora de pô-lo na cama, e o pai, como que adivinhando, ainda mais se agarrava ao filho e mais o mimava. Porém a maldade, vestida de mãe, venceu, e o inocente mudou de colo, instante mortal em que o tiro certeiro prostrou o inditoso hoteleiro.”

O delegado de polícia, abriu inquérito para apurar os fatos e, como se esperava, não encontrou o culpado, pois era ele mesmo!

Nesta época o José Antônio Picoral já tinha seu Balneário Picoral aqui na cidade e considerou um escândalo o caso de adultério e assassinato e tomou suas providências.

Um chefe de polícia do estado enviou um delegado especial para investigar o crime, acompanhado de três policiais. O delegado especial permaneceu na cidade durante uns 15 dias, interrogou muitas pessoas e chegou ao tal do Negrinho por denúncia da própria mulher. Preso e após dias a pão e água, o soldado Negrinho, confessou o crime a mando do delegado. Agora só faltava prender o delegado!

Mas essa era a parte mais difícil, o delegado Freitas andava bem armado e sempre acompanhado de dois soldados de confiança. Então o delegado especial resolveu armar uma cilada para o delegado Freitas. Chamou dois moradores de Torres e amigos de Freitas e lhes contou quem foi o mandante do assassinato e solicitou a ajuda dos dois e disse:

- Quando ele chegar... Ele vai chegar daqui a pouco mais, porque eu mandei chamá-lo. Vou cumprimentá-lo e quando eu disser “Boa tarde” e apertar a mão dele, vocês chegam um de um lado e o outro do outro. Passam a mão nos revólveres dele que eu dou “voz de prisão”. E assim foi feito. O delegado assassino nem reagiu.

A Irene Zeló foi condenada como cúmplice do assassinato do próprio marido. O soldado Negrinho, morreu na Casa de Correção em Porto Alegre. O casal assassino, também foi parar na Casa de Correção de Porto Alegre, e graças ao advogado, e mais tarde desembargador, Vieira Pires, tiveram suas penas reduzidas. Em menos de 10 anos já estavam soltos, casados e com uma filha. A princípio moraram na capital e tinham um pequeno comércio, mais tarde parece que voltaram a morar perto de Torres, na Vila São João ou no Passo de Torres.

Fontes: Guido Muri, Remembranças de Torres; Eduardo Festugato, Torres de antigamente.

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