• Roni Carlos Costa Dalpiaz

OS FANTASMAS DO PASSADO

Atualizado: Mai 16

Sempre gostei do fantástico.

Não, não estou me referindo ao programa de televisão, estou falando do sobrenatural, do inacreditável, do incrível (no sentido exato da palavra). Ou seja, basicamente tudo o que não temos certeza de sua existência, como fantasmas, discos voadores, milagres, duendes, lobisomem, bruxas, entre outros. Não que eu acredite neles, mas sempre gostei do tema.

Torres sempre teve seu nome ligado a diversas lendas como a fada da guarita, os homúnculos dos morros, a sereia das furnas, os tesouros escondidos por piratas, a lenda da lagoa do violão, o fantasma do seu Alfredinho, e tantas outras que estão no imaginário da cidade. E como bom curioso, eu e a gurizada amiga fazíamos um “tour” pelas casas mal assombradas da minha infância.

A existência de casas mal assombradas era bastante frequente, o que não difere muito de outras cidades, mas o abandono de casas durante a baixa temporada era um ingrediente a mais para o surgimento de histórias fantasmagóricas.

Casarões antigos abandonados eram os mais falados e um dos mais lembrados, do meu tempo, é o prédio da “Dona Berta” (Já contei esta história em uma coluna, quem tiver curiosidade é só procurar no meu site/blog). Mas se perguntar para os mais antigos que eu, eles terão muitos outros que já no meu tempo nem existiam mais.

Por este motivo resolvi recontar aqui algumas dessas interessantes e sinistras histórias já contadas por escritores e historiadores aqui da “terrinha”.

A primeira a ser recontada é a história da “A Casa Assombrada”, um caso contado por Ruschel em seu livro Torres tem história, que desafia a coragem dos descrentes. A história é simplesmente maravilhosa.

Conforme contou Ruschel, a história aconteceu por volta do ano de 1910 no vilarejo de São Domingos das Torres. Para se ter uma ideia do que seria Torres naquela época, a cidade iniciava onde hoje fica o prédio antigo da SAPT e terminava no prédio da escola Sagrado. Eram mais ou menos estes os limites.

O “causo” começou dentro do icônico armazém de secos e molhados do “Seu” Balbino de Freitas...

“Pelo fim da manhã chegou o esperado caixeiro-viajante. Amarrou a mula à frente do armazém e abriu os mostruários sobre o balcão. Seu Balbino encomendou o que precisava e o viajante rumou para a pensão do Alcides, almoçou e foi sestear.

Ao fim da tarde o moço voltou ao armazém para participar do papo costumeiro. A roda estava formada. Encostado ao balcão e sentados no banco da parede, os homens da vila jogavam conversa fora. O caixeiro entrou no assunto e perguntou sobre uma casa abandonada ao lado do velho cemitério. Ele teve que contorná-la, pois sua mula empacou.

Todos os olhos se voltaram para o viajante: - Aquele chalé á assombrado, moço. Um sujeito apareceu aqui, construiu para morar e sumiu logo. A casa ficou abandonada, faz barulhos estranhos e ninguém tem coragem de ocupá-la.

Acostumado a pernoites em bibocas horríveis, o moço aceitou um desafio de dormir na casa por uma noite. Cinco pelegas de cem mil réis foram casadas sobre o balcão. O viajante não teve dúvidas: botou 50 mil réis em cima. Seu Balbino puxou o dinheiro para a gaveta e o negócio estava fechado. Naquela noite, por acaso uma sexta-feira 13, lua cheia prevista, o caixeiro-viajante passaria na ruína assombrada.

Ao anoitecer, o pequeno grupo, lampiões na mão, conduzindo um colchão de crina, um punhado de pregos e uns sarrafos foi à casa. Ficava onde hoje é a esquina das ruas Cruzeiro do Sul e Padre Lomonaco, quase contra a encosta do morro. Ao lado, o antigo cemitério de mais de meio século, invadido pelas dunas.

O colchão foi acomodado no meio da peça única. Janelas pregadas por fora. Na porta, improvisada, uma tramela externa. O rapaz dentro. – Boa noite, moço. De manhazinha te buscamos.

O rapaz tirou as botas e se deitou. Até que vai ser uma noite tranquila, pensou. Perto da meia-noite o vento sul começou a soprar mais forte. A lua se encobriu, um temporal se anunciava. A escuridão tornou-se absoluta. Ele afastou qualquer temor. Os uivos que ouvia eram só do vento nas frestas do casebre. Dormitou cheio de coragem. No meio da noite acordou. Pareceu-lhe que ao sopro do vento se misturava um gemido humano. Sim, gemido lânguido, meio tremido. Um frio passou na espinha. Não. Eu estou imaginando coisas. Mas o gemido agora era lancinante. Um ai prolongado, repetido, desesperado, que vencia o barulho da tempestade e enchia o casebre. Todo arrepiado, agarrado ao colchão, o rapaz abria os olhos sem ver. De repente, o gemido se transformou num grito. Apavorante, mas cada vez mais claro:

- Ai que eu caio, eu caio.

O corajoso tremia. Sou homem ou um rato? Reuniu toda sua força e resolveu gritar também:

- Quer cair, que caia de vez.

Para que...O rancho pareceu desabar. Cataplum. Alguma coisa pesada desabou em roda dele. Algo duro e rijo rolou sobre o colchão e veio encostar-se à cabeça do rapaz. Ele não sabe até hoje como arrombou a porta. Antes das 3 da madrugada bateu desesperado na porta do Seu Balbino, descalço, sujo de areia, molhado da chuva, lívido.

- Homem, você está branco. Que é que houve?

- Seu Balbino, vim dizer que perdi a aposta. Nunca mais me meto em outra. E se tocou para a pensão.

De manhã, a comissão de árbitros foi ao local buscar o colchão e as botas. No assoalho esparramavam-se os ossos de um inteiro esqueleto. E sobre o colchão, olhos arregalados, uma caveira humana sorria sinistra...”

6 visualizações