• Roni Carlos Costa Dalpiaz

EU GOSTO DO OBSOLETO

Essa história de isolamento, de ficar em casa, de fechar comércio, anda deixando todo mundo meio confuso, para não dizer enlouquecido. Fechando o comércio e diminuindo a circulação de pessoas poderá ter uma diminuição no contágio e, como consequência, menos doentes e mortes: esse é o “fique em casa”. Porém eu sei que para os comércios essenciais funcionarem, tem que ter gente trabalhando, repondo, vendendo, atendendo... enfim, este é o “sai de casa”. Isso vale para todas as atividades chamadas essenciais, mas e as outras como ficam? É uma situação nova, confusa, sem precedentes, pelo menos neste século. O meio termo é o que parece estar sendo feito, mas não se sabe as consequências.

Neste assunto do coronavírus e isolamento, li estes dias uma coluna do David Coimbra na qual ele falava sobre o conforto de ficar em casa, mesmo ouvindo dos colegas que estavam incomodados e loucos para sair de casa. Ele se sentiu culpado, pois gostava da sensação de estar em casa. Para quem pode ficar em casa é uma opção indicada e benéfica, porém de difícil aceitação para a maioria das pessoas, por quaisquer que sejam as razões.

Imediatamente me identifiquei com ele. Eu também estou gostando de ficar em casa! Não que eu ficasse bastante tempo em casa antes do coronavírus mas, como posso, fico sem grande resistência.

David me fez reconhecer isso e outra coisa que eu já sabia.

Vou tentar explicar.

Me sinto bem com a Obsolescência. É, não sou contrário em aceitar o obsoleto.

Não me incomodo com o obsoleto, assim como não me incomodo em ficar em casa.

Muitas pessoas consideram o obsoleto, descartável. Se não serve mais, descarta. Troca por outro mais novo ou mais útil. E isso acontece em quase tudo que se usa, pensa ou faz.

Isso ficou mais claro depois de uma conversa com minha mulher que começou com o tipo de arte que eu gosto de pintar. Bem, esta discussão é antiga mas sempre volta à tona cada vez que penso em inovar e dar novos rumos ao meu trabalho como artista plástico. Sei que várias coisas que fiz, no caso da pintura, já não estão “mais na moda”, porém “eu quero estar na moda”? Eu quero fazer coisas que eu não me sinta bem, ou que vai de encontro ao que penso como artista?

Tomando este meu exemplo, generalizo para muitas outras coisas.

Um lampião, por exemplo, teve (e ainda tem em alguns lugares) durante anos sua função de iluminar exercida até surgir a lâmpada elétrica. E aí o que aconteceu com o lampião? Se reinventou! Melhor dizendo, alguém o reinventou como, por exemplo, um elemento de decoração. Perdeu sua função primeira, mas não descaracterizou-se totalmente, no fundo continua o mesmo. Se precisar iluminar, ele ilumina.

Assim eu vejo a obsolescência. Existe algo mais moderno e mais prático, mas se precisar, o obsoleto vai servir. E com uma vantagem, pode servir sem ser útil!

Tenho simpatia pelo obsoleto, mas gosto do novo. Sempre gostei, e aí está a questão. Um não vive sem o outro. A combinação entre os dois é uma mistura perfeita. O novo, o moderno, com o antigo, com o ultrapassado, com o obsoleto.

Um ajuda o outro, um completa o outro, um inspira o outro.

É isso! O obsoleto inspira o novo. Por isso que eu confirmo.

Eu gosto do obsoleto!

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