• Roni Carlos Costa Dalpiaz

“CORONATA”:A SERENATA DOS TEMPOS DE VÍRUS


Já faz muito tempo que não ouço falar de uma serenata.

Aquelas feitas ao pé da janela com cantoria e violão. Os mais jovens até acho que nem sequer soube da existência delas!

Me lembro muito bem da minha juventude onde raramente se fazia uma serenata para alguém. Mas ainda havia algumas esporádicas. Minha mãe é que gostava bastante, e além de receber as serenatas, principalmente em seus aniversários, ela também participava ativamente das serenatas oferecidas a amigos.

Não sei se ainda existe esse costume ativo pelo país, mas acho que é mais fácil percebê-lo em cidades menores do interior. Lá as serenatas podem ser vistas e notadas por todos.

É, os tempos mudaram, os costumes mudaram, as comemorações mudaram e os tipos de serenatas, também podem ter mudado, principalmente agora com o reinado do “coronavírus”.

Nada de sair para a rua!

Isso em alguns lugares não é opção, é ordem! Aqui no Brasil, como muitas outras coisas, não é levado tão a sério. E isso pode ser por diversas razões, não apenas econômicas ou circunstanciais. Mas o fato é que, tanto aqui no Brasil como em muitos lugares do mundo, as pessoas estão ficando mais tempo em casa e isso obrigou-as à mudanças de comportamento e atitudes em relação a diversas coisas que faziam fora de casa, como trabalhar, se exercitar, se reunir, festejar...

Com a falta de opções e o excesso de quatro paredes, as pessoas recorreram às sacadas ou às janelas, e voltaram seu olhar ao pouco movimento das ruas e a vida das outras pessoas em seu entorno. Na Itália, uma dessas pessoas iniciou uma cantoria em algum lugar e, tal qual o vírus, a ideia se espalhou rápido pelo país e pelo mundo, se transformando em outra pandemia, só que musical.

Esta nova mania, para os mais antigos, lembra bastante a antiga e popular “Serenata” ou “Seresta”, só que ao contrário. Na “tradicional”, a performance musical era feita, geralmente, em baixo de uma sacada ou janela, na nova serenata, a “Coronata”, é de uma sacada ou janela. Na “clássica”, um grupo de pessoas dedicava a canção a uma única pessoa, na “Coronata”, uma pessoa dedica a muitas outras ao seu redor.

Assim como as “legítimas”, as “Coronatas” são tipicamente calmas, musicalmente leves e feitas durante a noite. O que talvez divirja da serenata seja no quesito do amor, da declaração de amor a uma única pessoa. As “Coronatas” são declarações de amor à vida, ao próximo, são declarações de solidariedade, são declarações de esperança de vencer, talvez, o medo.

As “Coronatas” têm pelo menos uma vantagem sobre as Serenatas, elas podem ser levadas para longe, para onde nem se pensava em chegar. As “lives”, os grupos de WhatsApp, o Instagram, o Facebook, levam estes acontecimentos ao vivo para qualquer lugar do planeta.

Esses verdadeiros shows, arrastam famílias inteiras para as sacadas, que espontaneamente cantam, piscam as luzes dos seus celulares e até dançam durante o tempo da atuação. E, claro, têm aqueles que não gostam e até se incomodam com a algazarra nas sacadas. É, existe! Bem, mas a maioria gosta e se diverte aproveitando pelo menos uma hora de um pouco de alegria sem pensar no vírus.

A palavra "serenata" só poderia mesmo derivar do italiano. “Sera”, significa "noite", o que parece bem propício para a musicalidade e também para a escuridão em que o mundo se meteu. Mas “serenata” também deriva da palavra “serenus” que vem do latim e indica o céu estável, sem nuvens, o que pode representar boas novas para todos.

Quem sabe depois da “sera” (noite) nasça um dia lindo, e normal, de sol “serenus” (céu sem nuvens). E que isso aconteça num futuro breve, apressadamente breve.

Fontes: G1.Globo; Culturamix; Hypeness; Dicionário etimológico, Revista Veja; Romanews; Foto Infinity Imobiliária Digital.

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