• Roni Carlos Costa Dalpiaz

COLUNAS ANTIGAS - PIÁ BICUÍRA

Coluna originalmente publicada no jornal A Folha no ano de 2012.



“Sai prá lá piá bicuíra”. Nunca esqueci esta frase que escutei de uma adolescente veranista de Torres na minha adolescência. Embora eu tenha sido xingado não me importei muito, pois fiquei mais preocupado com a palavra utilizada porque até então eu não a conhecia. Perguntei aos meus amigos, que também foram insultados, e eles também não conheciam. Um primo de um amigo sabia: Marisqueiro, disse ele utilizando um sinônimo.

Então, apesar do modo como foi dito, ela não me xingou. Eu sou mesmo nativo (ou pelo menos passei a maior parte da minha vida aqui, apesar de não ter nascido aqui).

“Na década de 1950, morando em Torres, escutei-a várias vezes, em geral pronunciada por pessoas humildes, como pescadores ou agricultores, até analfabetos. Aplicavam-na aos ‘nativos de Torres’. Agora fiz uma experiência. De surpresa, perguntei a mesma coisa a meus netos adolescentes que aí veraneiam. Responderam-me, separadamente, que era como os de fora chamavam os torrenses. Portanto, passados mais de 40 anos a expressão persiste”.

Para minha surpresa no livro Torres tem história de Ruy Ruben Ruschel na página 825 ele trata da palavra “bicuíra”. Dedicando uma página inteira ao tema, ele chega à seguinte conclusão:

“Concluo que ‘bicuíra’ se pode traduzir por ‘aquele que vive na areia’ ou ‘sempre está na praia’. Portanto nada de desonroso para os torrenses. Em outras regiões, os moradores assumiram seus nomes tupis, como os capixabas, cariocas, caipiras (interior paulista), caiçaras (litoral de São Paulo), biribas (moradores do planalto)”.

Ruschel escreveu este texto em 1997, portanto 15 anos atrás.

Desde minha infância ouço sobre o abismo entre os torrenses e os veranistas, os servidores e os servidos. Vem de longe mesmo essa condição. Iniciou com o primeiro grande hotel da cidade, o balneário Picoral, onde todos que serviam para o hotel ou eram nativos ou vinham de fora na mesma condição dos daqui.

Com o passar dos anos as coisas foram mudando. Os nativos ingressaram na SAPT como sócios, mais tarde com cargos e até a presidência. Os nativos começaram a ter poder de compra e adquiriram casas a beira mar, algo não imaginado até então. Mudou-se o status quo construindo uma ponte de mão dupla sobre o antigo abismo.

Aquela palavra desconhecida na verdade não reverbera mais nas paredes dos edifícios da cidade, por que o mundo mudou, e felizmente Torres também mudou.

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