• Roni Carlos Costa Dalpiaz

AINDA NA ÉPOCA DOS CARTÕES-POSTAIS

Continuando o assunto da semana passada, os cartões-postais, agora escrevo sobre a sua segunda fase áurea, que aqui no Brasil se iniciou na década de 70.

Dois tipos de postal contribuíram para o renascimento do gênero: os postais de fotógrafos/autores e aqueles reproduzindo obras de arte. O cartão postal perdeu sua antiga função informativa, outros meios de comunicação mais rápidos, eficientes e práticos o substituíram. Dessa forma, sua existência e sobrevivência se tornaram um fenômeno puramente turístico e social.



Procurei através da internet e arquivos pessoais recebidos de diversas fontes e encontrei 130 cartões-postais, sendo que 22 deles impressos entre 1915 até o final de 1960 (relatados na coluna anterior), o restante, 108 cartões-postais, impressos entre os anos de 1970 a 1990. Resolvi, então, analisar sobre o que se pensava na época a respeito de “Turismo em Torres” e conhecer esta visão do público sobre a cidade e a cidade em relação aos seus atrativos turísticos, utilizando os cartões-postais como fonte de informação.

Vou apenas analisar os produtos turístico contidos nos cartões-postais e sua relação com o turista e com a cidade. Para isso devo pensar como turista. Qual seria o cartão-postal que escolheria para enviar aos meus familiares ou amigos? Ora, aquele atrativo que representasse Torres ou aquele que mais gostasse. Para isso eu deveria ter as opções, que ficam a cargo de quem os confeccionou e este o faz de acordo com a demanda. Neste ponto começa a influência do lugar nesta escolha. Quais as opções de postal que a cidade oferecia e em que quantidade e diversidade? A pergunta foi respondida através dos cartões postais da amostra.

De acordo com esta amostra, concluímos o seguinte: nos anos 1915-60 o atrativo mais oferecido em termos de cartão-postal era aquele que tinha a Guarita como tema central. Cerca de três em cada dez, mas o interessante é que já naquela época diversos outros atrativos (Ilha dos Lobos, Morro do Farol, Portão, Praia da Cal, Praia Grande) eram oferecidos e, portanto, apreciados pelos turistas.

Dos anos 70 a 90, a Guarita continuou sendo a campeã dos cartões-postais, agora com quatro em cada dez. E se juntarmos o entorno (paredões, furnas, portão, e vistas aéreas), chega a seis em cada dez cartões envolvendo o tema “Guarita”. Os outros dois atrativos mais utilizados para os cartões-postais foram o rio Mampituba (principalmente sua foz) e a Praia Grande. Um atrativo pouco aproveitado naquela época foi a prainha (chamada de praia do meio), sem nenhum postal nesta amostra.

Em 1979, ainda aparecia o antigo slogan do Picoral (Torres a rainha das praias gaúchas) adaptado e ampliado de praias gaúchas a praias de todo o Atlântico Sul: “A rainha das praias do Atlântico Sul” e a palavra Torres (Tôrres) vinha grafada com acento circunflexo no “o”. Mais tarde o antigo slogan foi novamente modificado e a palavra “rainha” foi substituída por “mais bela” e forjando aquele que se tornaria ainda mais famoso: Torres a mais bela praia do Atlântico Sul.

O modelo dos postais de 1970 era o mesmo dos mais antigos, seu tamanho era de 10,5x15 cm. Trazia no alto do canto esquerdo o nome do projeto ou campanha (Brasil Turístico ou RGS turístico), abaixo o nome da cidade e em seguida o nome do atrativo. Alguns traziam no verso do postal, além do nome do atrativo turístico, a descrição e histórico do local, como vimos no postal da Igreja Matriz São Domingos, no da Ilha dos Lobos e alguns da praia da Guarita.

Um dos diversos cartões-postais lançados na década de 70 foi aquele onde aparece a torre sul e a guarita ao entardecer, uma beleza de fotografia, transformada em cartão-postal e produzida pela empresa Kingcolor de Gramado-RS (isso mesmo de Gramado, não é interessante?). O interessante (e preocupante) é que muitos destes postais não traziam escrito o nome da cidade!

A Guarita foi, de acordo como a amostra, o atrativo escolhido pelos turistas e oferecido pelos gestores aos turistas. A bela e singular Guarita, que com as três Torres deu o nome a cidade e atraem e satisfazem os turistas desde 1915. Os cartões-postais além de solidificar os principais atrativos turísticos de Torres, auxiliou ainda na fixação do slogan da cidade.

Ah! Esqueci de comentar o porquê da minha escolha do postal que ilustra esta coluna em meio a 130 outros. Bem, o Brasil teve, nesta época (1970), uma grande propaganda externa e interna das belezas naturais e também da beleza feminina. E isto se multiplicou por diversas mídias, inclusive nos cartões-postais. Este tipo de propaganda gerou um grande fluxo de turistas com intuitos sexuais o que se transformou num grande problema para os destinos turísticos mais conhecidos, principalmente o Rio de Janeiro e as praias do nordeste brasileiro. Hoje essa divulgação externa já está mais comportada.

Aqui em Torres não vingou este “modelo”. De todos os cartões-postais por mim pesquisados, este acima foi o único em que apareceu, digamos, mais explicitamente mulheres com biquínis em primeiro plano. Em nossos cartões-postais as belezas naturais é que foram exaltadas, mesmo porque são elas o nosso principal atrativo.

Ainda há muito que se falar sobre os cartões-postais, mas encerro com as palavras de Siqueira:

Em si mesmas, imagens não significam nada. Elas precisam ser sentidas, observadas e interpretadas por um sujeito que as dinamiza, também, com seu imaginário. Aquele que vê um postal ou uma foto, turista ou não, dialoga com a imagem, lhe complementando ou alimentando com novos sentidos e significados. Nesse sentido, o turista pode ser entendido como o sujeito que, ao adicionar imagens às dos cartões-postais, põe seu imaginário a misturar, fundir e refundir imagens dinamicamente.


Fontes: Franco, Patrícia dos Santos. Cartões-postais: fragmentos de lugares, pessoas e percepções. Siqueira, Euler David de. Para uma etnografia do cartão-postal: destaque para a garota carioca.


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