• Roni Carlos Costa Dalpiaz

A DOIS PASSOS DO PARAÍSO

Há mais de 40 anos meu pai trocou um caminhão antigo por uma porção de terra distante cerca de 10 km da cidade. O local era conhecido como Capão da Farinha. Para chegar lá havia dois caminhos: um pela beira mar (naquela época era possível) ou pela interpraias (hoje, Estrada do Mar). Quando a estrada estava boa em menos de uma hora se chegava ao local. Pela praia era mais rápido, mas existiam os atoleiros na saída da praia da guarita e na saída do morro da Itapeva.



A primeira impressão que tivemos ao chegar no local é que era literalmente “no meio do mato”. Não havia luz, água ou qualquer comodidade. Existia apenas uma casinha de madeira de dois cômodos que fora adaptada para nos abrigar durante nossos “retiros” da cidade.

O lugar “Capão da Farinha” tinha esse nome (e os antigos ainda o chamam assim) porque em algum lugar por ali se fabricava farinha, eu acho! O que eu me lembro é que havia uma cancha reta, onde aos domingos aglomeravam-se pessoas da redondeza para assistir e apostar em corridas de cavalos. Os cavalos e seus donos chegavam de todos os lados, os que queriam apostar corrida davam um nó nas colas dos seus cavalos. Quem aceitasse, estava feita a carreira! E lá se iam, dois cavalos por vez. Mas o bom mesmo eram os merengues vendidos durante as corridas. Eram aqueles enormes merengues feitos com claras de ovos caipiras, não eram brancos, eram amarelados e que ao serem mordidos grudavam nos dentes feito chicletes, inesquecíveis!

Nesta chácara eu conheci um sapinho muito interessante, ele era preto e sua barriga era vermelha. O minúsculo sapo existia em grande quantidade na chácara. Com certo cuidado e um pouco de medo, eu virava o sapinho só para ver sua barriguinha vermelha. O tal sapinho foi quem me ajudou a saber exatamente o nome do lugar em que passei grande parte da minha infância: a Itapeva. Na verdade eu não sabia que todo o local fazia parte de algo maior chamado Itapeva, o que eu sabia é que para ir até a chácara, passávamos pela Itapeva que para mim se resumia na pedra do morro entre a Praia da Guarita e a Lagoa Jardim.

Mais tarde esta grande área se transformou no Parque Estadual de Itapeva, uma área de mil hectares com um patrimônio natural praticamente intocado e que preserva as características originais do Litoral Norte gaúcho.

E sabem quem é o símbolo do parque? O sapinho-da-barriga-vermelha (Melanophryniscus - Sapos-de-barriga-vermelha-sul-americanos - um gênero de anfíbios da família Bufonidae que é encontrado na Argentina, sul da Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai. Além dele, o parque também abriga várias espécies, que como ele estão ameaçadas de extinção, entre elas o gato-do-mato-pequeno, o tamanduá-mirim e o tuco-tuco (roedor que vive nas dunas). O parque tem, catalogados no plano de manejo, 177 espécies de aves.

Este paraíso próximo da cidade é praticamente desconhecido pela maioria dos turistas que escolhem Torres para desfrutar suas férias de verão, porém eu diria que é desconhecido até por muitos torrenses.

O interessante é que quando meu pai comprou esta chácara, existia poucos moradores nas redondezas e outros bem mais distantes. Hoje a Itapeva é um bairro de Torres, com restaurantes, supermercados, loja de material de construção, lancheria, farmácia, chaveiro, agropecuária, pousadas, chalés de aluguel e até um luxuoso condomínio horizontal (e outro que está surgindo). Enfim, o bairro possui um comércio bem variado e movimentado o ano inteiro.

Como se vê, o parque ficou pressionado, de um lado a cidade de Torres e do outro, um bairro residencial em pleno crescimento. E esse é um dos desafios que o parque enfrenta: defender a política de conservação do local numa área tão próxima ao perímetro urbano e tão valorizada economicamente. O outro é qualificar a infraestrutura do local, para atrair mais visitantes e se manter sustentável e, principalmente, intacto.

Em uma recente reportagem feita por Zero Hora, o parque é mostrado como um atrativo que possui uma bela paisagem e o farto ecossistema que atraem visitantes de cinco continentes em uma única temporada e é fonte de estudo para pesquisadores. E, de acordo com o gestor do parque, há um plano de uso público com projeto de concessão de serviços para a iniciativa privada para fazer o turismo sustentável deslanchar, como trilhas monitoradas, passeios ciclísticos, centro de visitantes, cobrança de ingresso e construção de um mirante, mantendo com o Estado a gestão e conservação do parque.

Assim como o entorno, a velha chácara não é mais a mesma, sua brejeirice se perdeu no tempo. As antigas precariedades, como escassez de água e luz, desapareceram. A água parca retirada com balde do velho poço deu lugar à água encanada e tratada pela Corsan. O velho motor à diesel que gerava a energia para a iluminação noturna, nem sei onde foi parar. Hoje a CEEE e seus postes chegam no portão. Até internet banda larga, hoje tem lá. E o sapinho? Lá eu não vi mais, deve ter ido se abrigar no parque.

O Parque Estadual de Itapeva foi criado também para isso, manter e abrigar estas espécies que estão desaparecendo, uma vez que o entorno não mais os abrigam. Que bom, assim posso matar a saudade do sapinho. É só dar dois passos e já estou no paraíso!


Como visitar o Parque Estadual de Itapeva: somente com agendamento prévio pelo e-mail agendamentotrilhapeva@sema.rs.gov.br ou peitapeva@sema.rs.gov.br e pelo telefone (51) 3626-3561 (também WhatsApp).


Fonte: Gaúcha/ZH; Site Parque Estadual de Itapeva.

0 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo