• Roni Carlos Costa Dalpiaz

É MARÇO NOVAMENTE

Assim como acontece todo ano, é março novamente.

O ano se inicia, de fato, com o final da temporada, porém não neste ano.

Da mesma forma que no ano passado, ingressamos no mês de março com uma quarentena, uma nova e escura quarentena, mais um “fique em casa”. Só que, este ano, a temporada foi fraca (devido a pandemia) e a previsão é que o período da baixa temporada, seja ainda mais difícil do que o ano passado. Mas não quero começar o ano com um assunto antigo, vou iniciar com uma coluna antiga.


Para dar uma amenizada neste mês de transição, da alta para a baixa temporada, vou reeditar uma antiga coluna que lembra como eram os “marços” de antigamente...

Francisco Raupp, no livro Do alto da Torre, descreve com uma aterradora clareza o sentimento comum no litoral gaúcho quando termina a temporada de veraneio.

“Eis-me espiritualmente em Torres, no jardim da minha casa. Fim de março de 1984 e é quase noite. Noto que uma transformação se opera em torno de mim. O verão estertora. Há uma volúpia incontida, quase pânico. Nenhuma promessa. [...] Que estará ocorrendo? Por que essa ansiosa expectativa pelo amanhã se apossou da cidade? As casas, os bares, os hotéis, as fruteiras, estão fechados. [...] A cidade foi varrida. Os visitantes foram chamados pelos seus deveres, deixando apenas os seus rastros, porque os seus rostos se diluíram na retina dos que ficam, no primeiro sol outonal. [...] Imantado das dores e inquietação da minha cidade, reflito e concluo: é o fim da temporada. Agora, a hibernação, o longo sono até chegar o novo verão”.

Buscando auxílio no dicionário, conceituo a palavra Hibernar como tempo de espera, inércia passageira, espera de um período que vai passar. O urso hiberna no inverno, o computador hiberna quando não é usado e o litoral hiberna após a temporada.

Muitas praias ficam realmente em um estado letárgico esperando a próxima temporada, quase morrem, mas acordam a tempo de iniciar uma nova temporada, um novo ciclo.

Torres possui aspectos de cidade e não mais se enquadra como balneário de verão, porém tem muito a fazer para se transformar em uma cidade ativa durante o ano todo.

Para quem fica o rompimento é brusco e é preciso um tempo para a readaptação ao modelo. O modelo de muitos bares/restaurantes/hotéis abertos para o modelo de poucos bares/restaurantes/hotéis abertos. O modelo de até 200 mil pessoas (ou mais) para o modelo de 40 mil habitantes. O modelo de ruas lotadas para o modelo de ruas quase vazias. O modelo do “verão” ou “alta temporada” para o modelo “inverno” ou “baixa temporada”

Como se vê no texto de Raupp, há mais de 30 anos, o cenário descrito é ainda muito parecido com o cenário atual. Ainda temos muito de balneário, mas agregamos muitas características de cidade. Temos uma universidade que empresta a Torres feições de cidade universitária na hibernação da cidade balneária. Mas é pouco.

Mas muitos ainda acham que ao final da temporada a cidade é devolvida aos torrenses, e felizes vão passar suas férias em Santa Catarina. E na volta curtirão o sossego da cidade nos próximos dez meses.

Cidade o ano inteiro. Tumulto no verão. Sossego no inverno. Cidade universitária. Cidade Balneária. O que queremos? Tudo? Um pouco de cada? Ou nada? Encerro com o pensamento de Francisco Raupp sobre esta transição:

“Não há uma metamorfose, há uma cisão, um rompimento seguido de um vazio. Rompe-se o barulho com o silêncio, interrompe-se o trânsito confuso com o desfile do nada. É o caos do silêncio.”

Fonte: RAUPP, Francisco. Do alto da torre: crônicas. Porto Alegre: Movimento, 1985.

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